
A chave da sobrevivência das empresas está essencialmente baseada nas pessoas
Para sobreviver e crescer, qualquer empresa precisa estar ciente da importância da inovação baseada nas pessoas, apostando ideias criativas em ganhos reais. O professor americano Robert Rosenfeld, fundador do primeiro escritório de Inovação dos Estados Unidos e CEO da Idea Connection Systems, concentra em seu livro ‘Making The Invisible Visible’ os princípios humanos que sustentam a inovação no mundo corporativo.
Para Rosenfeld, o importante é compreender esses princípios que precisam ser vivenciados e transmitidos pela direção das empresas. Somente assim será criada essa cultura, que é necessária para sustentar a inovação, hoje considerada a força vital de uma empresa.
“Inovação é pegar um ato criativo, gerar um pensamento novo e percorrer todo o processo até um ganho quantificável. Se a empresa não inova, ela morre. Se ela não cria o novo, ela morre. Muitas vezes, a criação do novo vai de um a outro extremo do espectro, do incremental, que é o aperfeiçoamento, até o breakthrough, criando um novo produto ou serviço”, analisa o professor.
A grande dificuldade para implementar essa cultura de inovação no Brasil não está atrelada apenas a metodologias, mas as barreiras comportamentais. “O nível de preparo, capacitação e atualização das equipes nas empresas é infinitamente superior ao de 20 ou 30 anos atrás, mas isso não garante que a inovação seja permeada na organização. Os recursos financeiros ou possibilidades de atividades de capacitação sobre o tema também são muito mais fartos do que duas décadas atrás, mas isso também não garante a adoção de uma cultura de inovação”, diz Jaime Jimenez, professor de Marketing de Serviços da Pós-Graduação da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e sócio-diretor da Sher Marketing.
A inovação torna-se mais fruto da mescla de metodologias adotadas pelas organizações e por lideranças fomentadoras desse tipo de cultura. Conforme destacada por Rosenfeld, a confiança é fundamental, mas precisa ser vivenciada para se tornar algo de valor. O verdadeiro “pulo do gato” está em como “capitalizar” com esse conhecimento. “As empresas consagradas nesse tipo de assunto, Toyota, Southwest Airline, GE, Pão de Açúcar, TAM e Itaú, entre outras, sabem casar bem esses dois pilares: metodologia e o engajamento das pessoas. Você pode até não ter a metodologia, mas se você tiver as pessoas certas, no mínimo teremos o ambiente para isso”, afirma Jimenez.
Para o professor da FAAP, a análise de Rosenfeld é muito pertinente. Um foco é inovar para melhorar a produtividade de uma fábrica, serviço de atendimento ou mesmo um ciclo de compra. O outro é definir se queremos inovar enquanto organização, mix de produtos ou missão da empresa. Uma faculdade, por exemplo, pode inovar para tornar as aulas mais dinâmicas, interativas, participativas ou para se tornar uma instituição mais versátil e atualizada com as demandas da sociedade. São decisões diferentes para curtos e longos prazos.
A tarefa do líder de inovação, de acordo com Rosenfeld, é encorajar as pessoas a serem o que são. Na inovação, uma dimensão muito importante destacada pelo americano é o estilo cognitivo, ou seja, o modo de pensar. “Em uma organização, o líder de inovação precisa orquestrar todas as pessoas, desde empreiteiros a pioneiros”, diz.
Este é um dos pontos em que as empresas brasileiras mais têm investindo nos últimos anos. De acordo com Jimenez, programas de formação de lideranças, coaching, assessment, subsídios para capacitação e educação e gestão por competências nunca estiveram tão em alta no país. Raramente, segundo o professor da FAAP, nota-se uma preocupação apenas com a capacitação técnica e sim como gerenciar e extrair o melhor de suas equipes.
“Muitas ideias deixam de prosperar por dois grandes motivos. Primeiro, o ambiente da empresa não contribui e a liderança está diretamente ligada a isso. E segundo: a falta de clareza das lideranças sobre como conduzir processos de inovação. Muitas vezes, existe um romantismo que todos os profissionais da organização irão aceitar uma mudança só porque ela é “boa” e faz com que os mesmos esqueçam de preparar, comunicar, capacitar. Mas as empresas brasileiras vêm investindo cada vez mais na preparação de seus líderes”, diz o professor.
Em suas palestras e livros, Rosenfeld destaca a importância da união da equipe, o que, segundo Jimenez, refere-se às habilidades de negociação, capacidade de influência e flexibilidade para mudanças. Esses são atributos que as empresas no Brasil atualmente mais procuram em profissionais nos processos de recrutamento e seleção.
De acordo com o especialista brasileiro, estas habilidades não são apenas modismos, pois é a clareza de que atualmente, diante das necessidades constantes de mercado, são necessários profissionais com capacidade de articulação e envolvimento com os demais setores da empresa.
Para Rosenfeld, um dos princípios fundamentais na busca pela inovação é a habilidade de identificar o diferencial nas pessoas. Durante muito tempo, as empresas estavam ‘presas’ à figura do gestor como um ‘caçador de talentos’, porém, de acordo com Jimenez, os modelos brasileiros vêm incorporando práticas de gestão (avaliação por competências, consultores internos, planos de desenvolvimento individual e testes de avaliação de competências, por exemplo), permitindo que o corpo gerencial como um todo possa estar a par de quem são os profissionais que fazem a diferença, não apenas nas suas atividades, mas também para o negócio.
“A maioria das áreas de RH vem sofrendo reformulações significativas buscando contar com profissionais e ferramentas que permitam buscar formas de otimizar e valorizar as pessoas que fazem diferença”, afirma Jimenez.
Em seu livro, Rosenfeld afirma que inovação começa quando se converte problemas em ideias. Essa talvez seja a parte mais complexa do processo, porque não estamos falando mais de metodologias e sim de crenças. Sobre este item, é muito pragmático regionalizar a barreira, já que não tem a ver com nacionalidade e sim com a natureza do ser humano e sua dificuldade de experimentar coisas novas ou transitar em terrenos desconhecidos.
“A base do conservadorismo é a falta de educação, informação e conhecimento. Diante disso, as empresas brasileiras vêm investindo fortemente na criação de setores e departamentos de Inteligência de Mercado com o objetivo de mapear possibilidades e oportunidades. Originalmente, poucas áreas tinham essa incumbência, porém há vários canais que permitem às empresas coletar mais subsídios para tomar decisões”, explica Jimenez.
O professor americano destaca a importância do amor e da dedicação dentro do mundo corporativo. “Apesar do termo ‘amor’ realmente ser uma palavra pouco comum no ambiente corporativo no Brasil, a essência da afirmação de Rosenfeld pode ser traduzida para o português como ‘vestir a camisa’ e isso, sem dúvida, é a consequência dos outros princípios. Muitas empresas erram por inverter a ordem dos apontamentos do professor Robert”, completa o professor da FAAP.
Características individuais
Marcelo Suster, diretor de Operações da EET Brasil (reciclando 100% das caixinhas longa vida) e membro do Conselho Consultivo da Ecouniverso, afirma que, para Rosenfeld, o caminho da inovação passa pelo respeito à cultura de cada empresa. Ele lembra que o principal foco do trabalho está no ser humano, respeitando suas características individuais e principalmente promovendo um ambiente de confiança mútua entre funcionários e direção.
Para Suster, cada um dos conceitos do professor americano pode ser aplicado na sua íntegra nas empresas brasileiras. “O próprio Rosenfeld comenta que o Brasil tem uma base muito boa para inovação e ela se situa na chamada facilidade que o nosso país tem para ‘construir relações’. Cabe aos nossos líderes empresariais assumir este papel de construtores desta conexão”, destaca.
Inovando
Alguns especialistas citam como exemplo a Brasilata S.A., líder do segmento de latas de aço. Segundo eles, nesta empresa os conceitos de inovação parecem obedecer aos princípios de Rosenfeld. Antonio Carlos Teixeira Álvares, CEO e acionista da Brasilata, afirma que, em 2010 na pesquisa patrocinada pela Época Negócios e realizada pela consultoria internacional AT Kearney, a empresa foi classificada como a 10ª mais inovadora do Brasil e hoje tem 95 patentes depositadas - a maioria delas nos EUA, Europa e Japão. “A inovação está no DNA da empresa”, diz o responsável.
Teixeira Álvares, que também é professor da Fundação Getulio Vargas, afirma que o conceito de inovação para a Brasilata é o mesmo adotado pelo Fórum FGV de Inovação, do qual é membro desde a sua fundação em 1999. “Inventar é criar algo novo, que não existia. Inovar é implantar algo que gera resultado”, diz. De acordo com ele, a inovação se origina com uma ideia e a única fonte de ideias são os ‘neurônios das pessoas’.
“Por isso, na Brasilata, todos os funcionários são registrados como inventores, independentemente da função exercida”, diz o CEO. “Saber se está funcionando não é difícil: os indicadores são básicos: clima organizacional, baixo turn over e, acima de tudo, muitas inovações e, por se tratar de empresa com fins lucrativos, claro lucro!”, completa.
Transcrito do Portal HSM,